Caminhos

Depois de muito caminhar percebi-me capaz de entender as trilhas que me trouxeram até aqui. Encontrei-me comigo diversas vezes, assim como me desencontrei de outros tantos eus que cruzaram meu caminho.

caminhos-2 De todas as pedras, sobraram aquelas que me fazem lembrar todos os dias que é mister para a existência caminhar. Assim como nenhum espinho foi em vão; não acredito em pretérito imperfeito.

Houve tantos dias de chuva quantos foram aqueles em que o sol castigou minha pele. E ainda que poucos tenham sido os dias amenos, temperados pela bonança e tranquilidade, só agora consigo usufruir plenamente do que estou vivendo, fosse por não reconhecer a beleza ou por não ter uma razão para fazê-lo.

Agora as estações do ano não me agridem mais. Hoje eu vejo o alvorecer e o alumiar e não me sinto só. Não me fustigam os amantes, posto sê-lo eu, quiçá, o maior deles. E o tempo passa, eu sei. Mas agora vislumbro um futuro em cores.

É que de tanto pensar, esqueci de viver.

Dia do nascimento

bolo_aniversario

Em 2002 eu criei meu primeiro blog e ele se chamava “Jubilado do País das Maravilhas”. Naquela época eu escrevia contos, mas eu não era lá um grande contador de histórias, então passei a escrever crônicas da minha vida ordinária. Mas aí a Globo.com me fez o favor de apagar meu blog.

Lembro-me de ter ficado ofendido com a Globo.com, mas aí me lembrei que eu não pagava pelo serviço de hospedagem e acabei por perdoar aquele deslize deles. Mas não satisfeito com meu silêncio literário, atrevi-me novamente na empreitada do blog e há quatro anos resolvi abrir este espaço, cuja alcunha era reflexo da vida boêmia que eu havia adotado naquela época.

E o blog, naquela altura, narrava minhas aventuras etílicas, acompanhado de um violão e muitos amigos. Só que as aventuras etílicas, a música e os amigos foram cedendo espaço para uma rotina esmagadora que envolvia, trabalho, viagens, distância, sofrimento e solidão. E mais uma vez esse estado de espírito foi impresso por aqui.

E então me resumi a narrar meu sofrimento, minha solidão e minha postura miserável e derrotada diante da vida. Sim, por muitos anos eu fui a única razão do meu sofrimento, pois não sabia viver apenas comigo e aquela solidão toda me fustigava demais. Só quem vive a rotina das viagens e quartos de hotel sabe do que estou falando.

Depois houve a mudança de cidade e a consequência foi o meu total afastamento da minha vida, meus amigos e familiares. E mais uma vez o blog refletiu meu estado de espírito, até que ficou insustentável viver aquela vida que registrei aqui.

Mas um belo dia eu resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer. Comecei a tentar viver uma vida normal e tão logo mudei meu comportamento, a consequência foi ter você em minha vida, mudando radicalmente o conteúdo deste blog, que como de costume, registrar meu estado de espírito.

Não sei quanto tempo durará este blog, mas acredito que ele só refletirá alegrias.

Uno

mirror Aí você chegou como quem não quer nada e, aos poucos, foi ocupando espaço em meu peito. Quando percebi, eu já estava envolvido em você, engendrado numa nova forma de entender o mundo e simplesmente deixei acontecer.

Depois que acumulamos muito de nós, percebi que a parte da vida que não tem você é que eu menos frequento, logo busquei uma maneira de estar onde está você e participar dos seus acontecimentos, porque me sinto parte deles todos.

Então o dia passou a se dividir em dois: comigo e conosco. Mas se antes eu me acostumava só comigo, hoje acho estranha minha presença sem a sua, como se eu fosse uma reprodução, fotocópia de mim mesmo que carece de original.

Mas eu nem me afobo mais; hoje eu entendo que posso viver a passiflora de nós dois, porque do lado vivo do espelho estará você, linda como sempre, me esperando.

E é com parcimônia que eu nos aguardo.

Gotas

gota Se saudade tivesse nome ela teria o teu. É chato chegar em casa e não ter você, porque parece que você sempre esteve comigo. Sua presença é tão acalentadora que tudo sem você é vazio e sem graça.

Se eu tivesse a chance de tê-la todos os dias, eles seriam todos mais agradáveis e completos, como um eterno domingo passional. Mas eu aprendo a viver contigo em gotas, como um remédio doce que cura minha solidão.

Ontem foi um dia bom, desses que ficam marcados para sempre, independente do que o futuro nos reserve. Tive vontade de chorar, mas de felicidade, por perceber que tudo aquilo que passei anos criando em meu mundo particular começou a tomar forma, se materializar. E de repente, assim de súbito, percebi que não sei lidar muito bem com a felicidade e a contemplação de uma vida de verdade, sendo vivida por nós dois.

E se eu não deixei rolar uma lágrima ontem a noite, foi por fraqueza.

Das coisas que não conheço.

Das coisas de amor que eu não sei, está toda essa alegria e excitação que me fazem tão bem. É que antes o amor machucava e maltratava. Antes de você, amar era sinônimo de angústia, de medo da rejeição e de constante pânico – devo me entregar ou mais uma vez serei preterido? Hoje eu já tenho a resposta.

Do que eu estou aprendendo a conhecer, estão os apelidos carinhosos – porque os amantes são ridículos – as demonstrações públicas de carinho, os seus amigos, hábitos e gostoes. E tudo isso me faz bem. Como faz bem receber uma mensagem no meio do dia, um telefonema antes de dormir ou perceber que a cor do seu esmalte mudou, embora eu não saiba a diferença entre fúcsia, magenta ou rosa choque.

Também aprendo a reconhecer seus humores, sorrisos e suspiros. Todo dia tenho aula de nós dois e todo dia eu aprendo que carinho a gente recebe homeopaticamente, sempre e sempre. Porque a pressa é inimiga do reconhecer.

Há também o egoísmo dos amantes que por tanto eu soneguei, como as piadas internas que ninguém entende, os olhares discretos de reprovação, o toque sutil das mãos querendo dizer algo sob a mesa ou ainda esquecer-nos do mundo e só pensar em nós.

Do que eu trouxe comigo, não sei o que vale a pena preservar. Mas por saber que cada um tem seu passado é que me motivo todo dia para construir um futuro só nosso. Egoísta, como todos os amantes e seus amores ridículos.

Essa noite o vento estava forte.