Pesos e medidas


Quase sempre me repito em minha saudade de você. E a todo instante urge a vontade de tê-la sempre comigo. E ainda que me sobre peito, faltam-me pulmões para enchê-lo sempre que me pego distraído em pensamentos de nós dois.

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São tantos os nossos planos e juras que talvez precisemos de mais meia vida para cumpri-los todos. E ainda que meu excesso cênico confunda quem de longe vê, sei que você enxerga minha maneira de te amar.

Superlativo gestos e sintetizo palavras: assim vivemos o peso certo e na medida exata o nosso amor. Justa forma que encontramos para inventar todo dia outras maneiras de viver a mesma vida. Vida nova, inconstante e convergente. Nossa nova vida a dois.

Se antes eu pensava tanto no futuro, agora me concentro só no hoje, tentando ser feliz homeopaticamente, um passo por vez, a cada novo alvorecer. E ainda que eu esteja assim tão ansioso e ávido por nosso dia-a-dia, acalma-me a certeza dos seus olhos me dizendo que eu não preciso esperar para ser feliz.

Porque já sou feliz todos os dias.

Como será o amanhã?

Então um belo dia você acorda e percebe que as habituais espinhas cederam espaço para marcas de expressão. E de súbito encontra uma densa barba onde até outro dia havia parcos pelos que te destacavam dos seus amigos.

Um olhar um pouco mais apurado lhe faz concluir que no lugar de festejar os pelos pubianos, há de se lamuriar pelos brancos que insistem em surgir. E agora o que cresce é o excesso de si. E não há mais razão para celebrar novos centímetros: sobram-lhe pele, flacidez e as dores lombares! E você então conclui que seu corpo está mudando. Outra vez.

Um grupo de adolescentes “um pouco mais jovens que você” fala uma língua que você não entende, usa roupas esquisitas e ouve uma música besta e pretensiosa. Você olha para si e descobre que suas roupas estão ganhando forma e tamanho proporcionais aos seus e até que é confortável usar as calças na linha da cintura. A “sua” música perdeu parte do sentido e deve ser executada em som ambiente, porque altos volumes lhe aborrecem. E no caminho para o trabalho você percebe que está ficando velho.

Cada dia que passa os gadgets ficam mais complicados e já não se sabe mais a diferença entre um MP8 e uma câmera fotogostrônica de 250 blastertompsons; twitter e outras gírias cibernéticas soam desnecessárias e as funções do novo DVD color maxi driverray ficam cada dia mais difíceis de entender.

Fazer 30 anos é cruzar definitivamente a linha que separa todo o resto e a vida adulta. Não há mais espaço para rompantes pueris. Não se tem mais “vinte e poucos anos” e embora ainda se seja jovem, não se é mais um garoto. Todos os ritos foram cumpridos e essa tal de sociedade nem é mais tão incômoda assim.

Você pode olhar para trás e perceber que não realizou seus sonhos: não é líder de uma banda de rock, não publicou aquele livro de sucesso e não conseguiu fazer as pessoas terem consciência ecológica. Você não construiu nada do que planejou!

Mas antes do desespero tomar conta, você percebe que seus sonhos mudaram com você. E então você olha ao redor e sabe que está construindo uma família ao lado do seu amor, tem um trabalho legal, amigos que lhe acompanham e que tem uma vida inteira pela frente, afinal de contas, a vida só começa aos 40!

Eu não sei como será o amanhã. Mas hoje foi um ótimo dia.

P.S.: antecipei o habitual texto de aniversário, pois ficarei sem acesso a Internet entre os dias 23 e 25 de outubro.

Pleonasmo


Eu estive nesse divã durante alguns anos. E aqui conheci pessoas, narrei acontecimentos reais e criei um alterego que superlativou vários dos meus sentimentos e emoções. E por meio deste alterego eu tive relacionamentos imaginários, exorcizei diversos dos meus fantasmas, cicatrizei muitas feridas e vivi alegrias inventadas.

Mas chega um momento em que a vida real é melhor que a fantasia. E parafraseando Lenine, hoje eu tenho todas elas juntas num só ser, logo toda prosa, todo verso e toda poesia eu vivo todo dia, ao lado dela que aceitou viver conosco nossa vida.

E nem preciso falar da minha felicidade e do meu amor, porque aí já é pleonasmo.

Vivo

Estou vivo. Passei um bom tempo afastado por conta de algumas mudanças (positivas) em minha vida. Pretendo em breve aparecer por aqui com detalhes.

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Hoje não tem continuação :P

Hoje

Não sou lá muito chegado a mudanças, o que não quer dizer que eu goste de rotina. Já passei por cidades, segui a contracultura e odiei a forma. Nunca me ajustei, mas também não fugi dos padrões.

Tenho regras e métodos próprios e preciso segui-los - não é fácil viver dentro de um sistema - e quase não me permito alterações. Trafego pelo mesmo caminho, ouvindo as mesmas músicas e brigando pelas mesmas causas. Não sei se tenho uma vida chata, mas acho que tenho uma vida boa.

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E eu gosto da vida que eu tenho. Eu moro sozinho e tenho liberdade financeira. Gosto de chegar em casa e não ter que dividir nenhum espaço. Gosto do silêncio e da minha reclusão. Gosto da solidão, do excesso de privacidade e liberdade que tenho.

Mas eu gosto muito mais de você. E por você eu mudo minhas regras e métodos. Porque eu gosto de estar contigo. E quero contigo dividir minha vida, meus espaços. E quero quebrar o silêncio e deixar de ser só.

Com você tudo é mais simples e completo. E que bom que hoje tem amanhã todo dia.

Amanhã

O eco de suas palavras ainda reverbera em meu coração. Ouço o estalo do último beijo sobre aquela lágrima que rolou em meu rosto e custo a crer que não haverá amanhã. E eu preciso me acostumar com as noites vazias, um espaço na cama e um banco vago em meu carro.

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Tem um monte de coisas que eu não aprendi, mas sei que as palavras ditas é o que mais te faz falta. Eu não consigo dizer como me sinto ou o que penso, não quando são sentimentos. Porque sentimento a gente escreve que é para que o vento não leve. Mas as vezes as palavras saem ao contrário e o que eu escrevo não presta. Ou não me reflete.

Ficou um monte de coisas não ditas. Talvez não estejam mal resolvidas, mas eu não tenho como saber. Sinto apenas que sentir muito é pouco diante do que eu não disse de verdade. Não falo só de sentimentos, mas de tudo o que era minha vida nesse hiato de felicidade.

Eu não tenho os muros que asseguram e tranqüilizam. Não tenho armas contra a incerteza ou um porto para atracar seu peito. Sou como um tiro de meta: cinqüenta por cento de chance de dar certo. Ou um copo vazio pela metade.

Agora eu não sou nada. Porque não tem amanhã desde ontem.

Something to remember

Passamos tanto tempo acreditando na eternidade que nos esquecemos que parte das estrelas que no firmamento brilham todas as noites já deixaram de existir há milênios. Perdemos tanto tempo de nossas vidas complicando as coisas que só depois que elas passam é que percebemos como elas eram boas. Mas aí o trem já partiu e levou consigo tudo o que nós tínhamos.

Talvez porque todo sofrimento seja construído a partir de tijolos que nós mesmos assentamos. Seja numa tentativa de edificar o abstrato ou por razão qualquer que seja, estamos todos os dias em busca de uma explicação para todas as coisas.

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Se a vida fosse um caminho em linha reta, a gente passaria a maior parte do tempo dormindo. Mas estamos o tempo inteiro diante de curvas e bifurcações inesperadas e a vida vira um jogo de perde e ganha. Porque escolher é renunciar e nem sempre podemos ter tudo o que queremos. E a gente erra querendo acertar, mas isso não apaga o erro e a mágoa.

E dizem que para cada pecado existe um perdão, mas depois de maculada a maçã, embora ainda seja uma maçã, deixa de ser tão doce. Porque a gente aprende a ser perdoado, não a perdoar.

Estou desaprendendo. E isso dói.